*Tradução livre | Texto publicado originalmente em inglês: https://migraclima.org/articles/2026/06/16/water-scarcity-and-refugee-migration-in-the-middle-east-lived-realities-of-the-global-south/
A Escassez Hídrica como a Nova Fronteira da Sobrevivência
Em um mundo que corre contra as mudanças climáticas, a água já não é apenas um recurso – ela é uma linha divisória entre a sobrevivência e o deslocamento, entre a estabilidade e o colapso. A escassez hídrica se consolida hoje como um dos indutores mais potentes da migração forçada no Oriente Médio e em todo o Sul Global, expondo profundas fendas na justiça ambiental (Mixed Migration Centre, 2024).
A Pobreza Hídrica na Jordânia: Fluxo de Refugiados e Infraestrutura Fragilizada
A Jordânia figura entre os países mais áridos do mundo, com uma disponibilidade hídrica per capita inferior a , ficando muito abaixo do limiar global de pobreza hídrica, estabelecido em (Sundial Press, 2025). O influxo de mais de 1,3 milhão de refugiados sírios intensificou essa crise, sobrecarregando uma infraestrutura de saneamento e abastecimento de água que já era frágil. Tanto as comunidades de acolhimento quanto os refugiados enfrentam desafios crescentes no acesso à água potável, evidenciando a interseção entre a escassez ambiental e o deslocamento humanitário.
Rios em Retrocesso, Colapso Agrícola: Deslocamento no Iraque e na Síria
No Iraque, a redução do vazão dos rios Tigre e Eufrates devastou a agricultura, forçando milhares de pessoas a abandonarem seus meios de subsistência rurais e a migrarem para centros urbanos (CSIS, 2024). De modo semelhante, as secas recorrentes na Síria desencadearam um amplo deslocamento interno, afetando particularmente as comunidades agrícolas cuja sobrevivência depende da agricultura de sequeiro. Esses casos ilustram como a degradação ambiental se traduz diretamente em instabilidade social e em pressões migratórias.
Deslocamento e Imobilidade: Vetores de Estresse Climático no Sul Global
Um estudo recente estima que mais de 143 milhões de pessoas no Sul Global poderão ser deslocadas até 2050 em decorrência de vetores de estresse climático, tais como secas, ondas de calor e inundações (Nature Climate Action, 2024). Contudo, o deslocamento é apenas parte do cenário. Muitas comunidades permanecem enraizadas apesar da escassez, limitadas por recursos escassos ou por laços culturais — um fenômeno de “imobilidade” que se mostra tão crítico quanto a própria migração (United Nations University, 2024). Essa dupla realidade joga luz sobre a geografia desigual da vulnerabilidade climática, em que tanto o deslocamento quanto a imobilidade revelam uma fragilidade sistêmica.
Da Escassez à Justiça: Construindo Respostas Climáticas Inclusivas
A migração forçada decorrente da escassez hídrica não é meramente uma crise ambiental; trata-se de um desafio moral que exige soluções inclusivas, justas e de vanguarda. A cooperação regional na gestão de recursos hídricos transfronteiriços, o investimento em agricultura adaptada ao clima e o planejamento urbano inclusivo para refugiados são caminhos fundamentais para o futuro. Como observou um especialista em clima: “A água é vida, mas a justiça é o que torna a vida possível para todos.”.
Água e Justiça: Ônus Compartilhados, Futuros Compartilhados
A escassez hídrica não é um destino manifesto, mas sim um teste para a justiça. O Oriente Médio e o Sul Global encontram-se na linha de frente do deslocamento climático, mas também guardam as sementes da adaptação. Soluções equitativas exigem que refugiados, comunidades de acolhimento e Estados fragilizados não sejam deixados sozinhos para carregar esse fardo. A justiça deve fluir de forma tão livre quanto a água, superando fronteiras e gerações.
Sobre a autora:
Sara. M. AlKhalid – Geóloga e pesquisadora em Recursos Hídricos e Sustentabilidade Ambiental.
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